Cidades
Compra, venda e troca: Feira do Rato segue viva
Na Levada, em Maceió, local é ponto de encontro para comprar de roupa a acessórios de bicicleta
Os bairros do Centro e da Levada em Maceió são endereços certos, há décadas, para duas tradicionais feiras, a do Rato e a do Passarinho. Ambas bastante populares e ricas em histórias peculiares ainda movimentam a economia na capital.
Apesar de toda modernidade dos grandes centros de compras e da facilidade de pagamento por meio do Pix, há quem ainda comercialize seus produtos anotando as compras em caderninhos e cobrando quinzenal ou mensalmente dos fregueses.
A confiança, no entanto, é alcançada apenas por fregueses de décadas, décadas a perder de vista, avisou os comerciantes.
Na Feira do Rato, um comerciante de destaque é o Luiz Carlos da Silva. Ele vende ferramentas diversas há pelo menos 15 anos. Seu ponto comercial está aberto de domingo a domingo, das 5h30 às 12 horas.
Natural de Pilar, trabalhava como carpinteiro em uma empresa. Até que assistiu a uma reportagem em que disse ter visto que para comerciante, nunca tem tempo ruim. A partir daquele dia, resolveu ser seu próprio patrão.
“Garanto que as minhas refeições diárias eu consigo pagar com o fruto do meu trabalho”, disse.
Também na Feira do Rato, o comerciante Augusto Otávio de Melo vende relógios. Dos mais diversos tipos, tamanhos, design e marcas. São pelos menos 30 anos à frente dos negócios. Ele trabalha junto ao irmão. Está sempre no ponto comercial das 8h às 17 horas.
Sua banca fica bem próximo ao antigo Palácio do Trabalhador. Entre as curiosidades da Feira do Rato, ele conta que lembra, com carinho, do tempo em que os feirantes colocavam os produtos na linha do trem e ao sinal do primeiro apito do maquinário tinham que recolher as mercadorias.
“Não sei se tenho saudades, mas que era engraçado era”. Entre as histórias curiosas que acumulou ao longo das décadas como feirante, ele disse que até hoje se surpreende com algumas pessoas que deixam o relógio para trocar pilhas ou consertar alguma peça, somem e reaparecem dois, três anos depois, querendo o relógio. E essas pessoas ainda ficam chateadas quando eu explico que ninguém guarda um produto consertado e não pago tanto tempo assim. Explico que tive que vender para cobrir os custos com as peças ou pilhas. No final, eles acabam admitindo que erraram”, detalhou.
Atualmente, a Feira do Rato está dividida. Uma parte fica no cruzamento da linha do trem com a Rua Formosa. E outra parte, bem menor, fica nos fundos do Colégio São José.

Historiador
“A Feira do Rato, ou do troca-troca, ficava na mesma calçada dos fundos do Colégio São José (teve um início na Praça Emílio de Maya). Hoje, em sua versão noturna, está na Ponta Grossa, na intersecção da Rua Paissandu com a Demócrito Gracindo, tem uma pracinha por lá”, detalhou o historiador Edberto Ticianeli.
A Feira do Rato tem suas bancas espremidas em espaços apertados. Algumas mal cabem o vendedor. De tudo se vende, de tudo se compra. Reza a lenda que na Feira do Rato há, inclusive, alguns produtos de origem duvidosa. De roupas a maquiagem, passando por panelas, pulseiras, cordões que imitam prata e ouro, relógios, alguns maiores até que a circunferência dos braços, é uma infinidade de mercadorias.
Dezenas de chefes de famílias sustentaram a casa com o suor do trabalho nessas feiras. Em meio ao quase caos das ruas estreitas e sem estrutura, do vai e vem de pessoas, do barulho e da gritaria dos comerciantes e fregueses, da total ausência de banheiros públicos ou coleta adequada de lixo, ao final do dia, tudo dá certo.
Feira do
Passarinho
Ainda na região da Levada, uma feira bastante conhecida do maceioense resiste e os fregueses possuem uma relação de confiança que ultrapassa os limites da banca de negócios e vira amizade. É o caso do comerciante Pedro Tenório da Silva Filho, 58 anos, dono de um ponto na Feira do Passarinho, há quase quatro décadas, e de George Gois.
Enquanto Pedro sustentou a casa a vida inteira entre os cantos dos pássaros que ele vende e os quase 70 itens para quem cria pássaros, George comprou um canário belga e em quase 10 anos de amizades, descobriram afinidades pessoais, amizade duradoura onde falam sobre os mais diversos assuntos, inclusive, pássaros.
Natural de Maribondo, pai de três filhos e avó de cinco netos, o sexto a caminho, Pedro largou a banca de alimentos e foi se aventurar entre rações e gaiolas. Trazidas de Caruaru, em Pernambuco, as gaiolas são uma atração à parte na banca de comércio.
A partir de R$ 20 por mês, é possível cuidar, com carinho, sem deixar faltar nada para o pássaro. A clientela garante e sempre volta. Preço bom e produtos de qualidade são a marca registrada do Pedro Tenório.

George Gois contou que o amigo se formou até mesmo em veterinária mesmo sem ter sentado um dia sequer em uma banca universitária. “Ele entende tanto de pássaros que sempre que minhas aves precisam, recorro a ele”.
Modesto, o comerciante da Feira do Passarinho recusou o diploma cedido pelo amigo, mas optou por ficar com o título de “profundo conhecedor de pássaros”, formação que a vida lhe deu.
“Já salvei muito bichinho mesmo. Alguns até engasgado e não me troco por muita gente formada em faculdade e que usa inteligência artificial para responder perguntas não. Minha inteligência e sabedoria, ganhei da vida e essa ninguém tira”, argumentou, enquanto arrumava na banca os pepinos, jilós, milhos e mangas para ficarem bem vistosos aos olhos dos seus clientes.
O comerciante Pedro Tenório está na banca, de domingo a domingo, das 5h30 às 14h00. Como sempre tem clientela novata, as amizades também se renovam.
Dono de pássaros, assim, como as pessoas mais antigas da família, o jovem Julius Bernardo da Silva, estava marcando ponto no local. Antes quem fazia as compras era o pai, agora o rapaz, já entendido de pássaros, faz questão de ir até a Feira do Passarinho comprar os produtos, ter dois dedos de prosa e ainda ganhar um bom e velho desconto.
Conforme o historiador e jornalista Edberto Ticianeli, a Feira do Passarinho já foi na Praça São Benedito, ao lado do antigo Mercado, onde foi o prédio da Secretaria de Educação do estado.
A tradicional feira já teve também outros endereços. Segundo Edberto Ticianeli, a Feira do Passarinho funcionou no início da rua Celeste Bezerra, em frente ao então Mercado Novo, atual Mercado do Artesanato. Depois foi para o calçadão nos fundos do Colégio São José, em frente à Praça Emilio de Maya (hoje tomada pelos camelôs). Atualmente está na Rua João Calheiros Gato, na margem do antigo Riacho das Águas Negras, atual canal de esgotos.
A jovem Flaviana Bernardo estava ajudando na banca da mãe. A família vende ração natural para os pássaros. Os “moio”, quantidade separada do produto e presa com um cordão, é vendido a R$ 1, R$ 5 ou R$ 10, depende da quantidade.
Ela e mãe moram no município vizinho de Rio Largo. A cidade faz parte da região metropolitana de Maceió. Para não perder a clientela, ela explicou que, se for necessário, entrega o produto de moto terceirizada.
“O importante é não deixar de atender o cliente e garantir a comida do pássaro”, ensinou a jovem comerciante.
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